3 de agosto de 2007

Quinta-Feira na Paraiba

Ontem foi o dia mais interessante do Colóquio. À tarde, no mini-curso de Metafísica aristotélica, o prefessor Grabriel entrou, conosco, no terreno nada seguro da ontologia. O velho dilema do ser. As hierarquias do conhecimento. Enfim, os modos de conhecer. As sensações. A arte. A epistemologia. À tarde ainda, nas Comunicações, um pouco mais de Aristóteles: física e metafísica, deliberações e investigações, um lugar para a matemática em aristóteles. Enfim, tudo isso devo detalhar em outro lugar. À noite, mais aristóteles; dessa vez, com gente de outro calibre: Aristóteles e os direitos humanos, Aristóteles e a política americana. Sei mais de aristóteles que ele de si mesmo.

Lan House na Paraíba

Desde que estou aqui, a pessoa mais simpática - e que, de certo modo, tornou-se a referência mais familiar em Campina -, foi Jonilma, atendente da Lan Hause onde agora estou. Ela já meu deu as dicas de forró pé-de-serra na cidade, e promete ir a Salvador. Se for, levo-a na Faculdade. Apresento-a a Eliane, que lhe dará noções de arrepio à luz de Plotino.

2 de agosto de 2007

Espetinho Suspeito

Quarta-feira foi um dia particularmente rico.

Às 14:15 participei de um mini-curso com o professor José Grabriel Trindade, cujo conteúdo era a metafísica de Aristóteles. O professor destinou 30 minutos, dos 120 que teria, só para falar do contexto da obra. O que foi muito bom. Logo depois, entrou no tema propriamente dito: a metafísica. Apanhamos igual cachorro doido.

Às 16:00, teve início as Comunicações. Comunicações são apresentações de pesquisas ou estudos por parte de alunos (mestrandos, doutorandos). Foram quatro as comunicações. O Poema da Deusa – Parmênides – foi um dos temas. O Não-ser veio à tona na segunda comunicação. Na terceira, Hegel e Sócrates. E, por fim, a figura rizível de Sócrates, segundo comediantes da época.

As 19:30, teve início as conferências da noite. A primeira, ministrada pelo professor Prof. Dr. José Gabriel Trindade Santos (UFPB), cujo título era: “Reflexão e criação conceitual na Filosofia Grega”. Logo depois, o Prof. Ms. Enrique J. Mickle Muñoz (Univ. Playa Ancha/CHILE), com a conferência- "La amistad en La Política de Aristóteles".

O saldo do dia foi a pacificação entre Heráclito e Parmênides, que até então andavam de birra um com o outro.


Ali pelas 22:00, estava no centro da cidade comendo um espetinho de proveniência ultra suspeita.

1 de agosto de 2007

Noite da Terça-Feira

O Auditório da Faculdade de Ciências Jurídicas da Unviversidade Estadual da Paraíba não comportava todos aqueles que vieram para a abertura do I Colóquio Internacioanal de Filosofia Antiga. Tendo chegado mais cedo, busquei sentar-me o mais próximo possível, a fim de não perder nenhum lance.

A conferência da noite foi ministrada pelo Prof. Dr. Hugo Renato Ochoa Disselkoen (PUC de Valparaíso/CHILE), que tinha como título: "El anilo de Gigues en la República de Platón". Para debater com ele, a Profª. Drª. Rachel Gazolla de Andrade (PUC/SP). Para mediá-los, o Prof. Dr. José Gabriel Trindade Santos (UFPB), que é doutor em filosofia antiga.

Três titans foram buscar nas entrelinhas da República de Platão o conceito de justiça.

O professor Hugo, ainda que arrastando o português, fez a leitura de sua conferência, cujo conteúdo é do tamanho de seu currículum: respeitável.

A professora Rachel, não menos respeitável, deu mostras de que sabe do que fala quando o tema é Platão.

Mas...

Mas quem de fato me impressionou foi o mediador, José Grabriel. Que habilidade humana! Que provas de conhecimento! Que habilidade com a língua!

Hoje, a conferência será dele. O tema: “Reflexão e criação conceitual na Filosofia Grega”. Além dele, o Prof. Dr. Ricardo A. Espinoza Lolas (PUC de Valparaíso/CHILE), com o tema "Hegel y Dionysos... una lectura de los griegos".

Vai dar uma edição completa do Implikant.

Notícas de Campina Grande

Às 10 da manhã de ontem, dia 31/07, cheguei a Campina Grande. Estava frio e um vento forte insinuava a presença de chuva nos arredores. Do alto da rodoviária, é possível vislumbrar a cidade, que é muito grande e muito bonita.

Primeira providência, achar um hotel. Achei. Segunda providência, achar o local do evento (I Colóquio Internacional de Filosofia Antiga), achei. Terceira providência, almoçar. Almocei. Quarta providência, andar pela cidade. Andei. Quinta providência, dormir um pouco, para estar inteiro para o evento, que começa às 19:00.

E assim foi a manhã e a tarde do primeiro dia. E eu achei bom. A "noite", comento acima.

Positivismo

Passei 3 dias em Natal. Fazia alguns anos que não ia à mais simpática das cidades do Nordeste. Claro, revi Silvana. É a mesma Silvana doutrora. Revi Cinthya. Esta, sim, é outra Cinthya. Deu-me aulas de direito, de psicanálise e noções elementares do positivismo. Claro que me apaixonei. Revi Lucas. Pretendo raptá-lo. Conheci Lúcio, e não estou satisfeito quanto à camisa. Durante 3 dias vimos de tudo nas noites de Natal. De madrugada, parti para Campina Grande.

22 de junho de 2007

IMPLIKANT: Entrevista com Eliane

Em entrevista dada na tarde de ontem (09/05), Eliane, Big Boss, protagonista de uma das mais calorosas polêmicas já presenciadas nesta Confraria, disse tudo. Lavou sua alma. Na última aula de Metodologia Filosófica, Eliane apontou erro num exemplo de lógica dado pelo autor que estudávamos. Foi tida como ousada, quixotesca até. Eliane ousara dizer que havia erro na construção do exemplo, envolvendo mamíferos vertebrados e cachorros. Ilhada e tida como implikant, Eliane manteve-se firme até o fim. Onde muitos tombaram, ela se fez firme como as pedras da praia do Porto da Barra. Por fim, para por termo a uma polêmica que adentraria pela noite, julgou-se pertinente submeter a questão ao crivo haroldino; o que foi feito. Haroldo, pitagoricamente iluminado, foi breve e lacônico em seu julgamento quanto à construção (i)lógica: “Tá errado.” Sílvio, um dos poucos a se colocar como partidário da posição janínica, quase soltou fogos juninos. Eis a entrevista-monólogo:

Implikant – Eliane, na sua opinião....
Eliane – Eu defendo uma sociedade madura, que seja capaz de não se calar quando falar for um imperativo inafastável!! Sinto-me uma espécie de Simone de Beauvoir para Leigos.
Implikant – Isso quer dizer que...
Eliane – o que me motiva é a certeza de que contribuo para que a Confraria B seja um ambiente eminentemente de debates, da busca incessante da Verdade (inda que de tardinha)!
Implikant – Quanto aos...
Eliane – Tenho maturidade suficiente para entender que, num curso de filosofia, tudo que for dito trará contribuição para o conjunto, logo, mesmo as perguntas sem pé e sem cabeça proferidas pelo Luiz Cláudio devem ser respeitadas como “a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos” [O.M in Metade], embora eu não concorde com à sua opinião sobre a tendenciosidade do Marcos.
Implikant – Gostaria de....
Eliane – E tem mais, há quatro temas que devem ser discutidos na Confraria, além de todos os outros temas igualmente complexos: política, religião e futebol. Quebremos esse tabu secular que assevera que esses são temas indiscutíveis, indebatíveis. Ora, se as vértebras de um cão ficam em cartaz por uma semana, nada impede que o debate se estenda àqueles temas acima.
Implikant – No tocante a...
Eliane - Sim, foi com o misto de alegria e orgulho que soube que meu posicionamento estava ancorado na mais lúcida das análises lógicas. Sim, exultei! Sim, vi meu ego romper o teto do Mosteiro, indo alojar-se nos anéis de Saturno. Ora, foi Haroldo, e não outro, que a mim me deu razão. Estou sem palavras...
Implikant – Nosso colega Valmir...
Eliane – Não quero ser glorificada... Não! Não quero e não peço outdoors espalhados pela orla louvando meu ato de força e inteligência ímpares! Não! Só quero o direito sagrado de tatuar em minha pele a frase que mudou para sempre minha vida: “Tá errado”.
Implikant – Tudo indica que...
Eliane – Convoco a todos: homens, mulheres e moradores de Periperi, que acreditem em suas convicções e por elas lutem, ainda que se lhes custe duas ou três horas de aporrinhações.
Implikant – Só nos resta...
Eliane - Não, não sou dona da verdade, mas se eu sacar meu FGTS e vender um colar de pérolas já dá para dar uma entrada e parcelar o restante em duas ou três reencarnações, sem juros e sem indulgências.
Implikant – Depois de...
Eliane – Quero agradecer pelo espaço que me é dado para prestar esclarecimentos à sociedade quanto à polêmica por mim provocada e convocar a sociedade organizada para que se mobilize em prol de todas as espécies, mamíferas ou não. E, sempre que for preciso defender verdade, hei de bradar: “J´Accuse...!”

Como vêem, foi uma entrevista-monólogo muito boa. Eliane, ávida como ela é, não deixou pedra sobre pedra. Respondeu clara e objetivamente a todas as ‘perg’ .

Possivelmente divulguemos o make in off da entrevista, onde nossa entrevistada comentou assuntos diversos: 1) a situação de Antenor, diante do posicionamento firma de Ana Luiza; 2) suas preferências quanto a tapetes persas, em detrimento dos vendidos no Taboão; 3) Popó, um cinturão a menos; 4) a eficácia da acumpultura no processo de ressurreição; 5) a atuação sem sal do Fábio Assumpção.

14 de abril de 2007

SANTIFICADA TRILOGIA

Valei-me, São Bento!

Seria bom se ela não me olhasse
Com aquele olhar de quem não diz (mas diz).
Não me concentro nunca ali na classe,
Pra cada explicação em peço bis.

Esse romance vai me dar problemas.
Da flecha de Eros o peito crivado,
Eu já prevejo que aquelas algemas
Vão me prender num cárcere privado.

Mas eu confesso que quero ser preso,
Virar cativo, um serviçal moderno...
(acreditai, isso não é piada)

Pois ela hoje me deixou surpreso:
No intervalo, lá no meu caderno,
Você me deixa toda arrepiada”.


Valei-me, Santo Antônio!

Já faz um mês que estamos nesse jogo.
São trinta dias de inquietação.
Quando eu avanço, ponho-a em fogo,
Quando ela vem, eu fico sem ação.

Pois eu por mim ficávamos assim,
Vivendo a mágica dessa magia.
Embora eu tenha a certeza do “sim
É seu “talvez” que hoje me contagia.

Se ela me olha, finjo que não vejo;
Se eu a encaro, ela me ignora.
Mas já prevejo o nosso final:

Ela me escolhe e eu a elejo:
Para maínha, o modelo de nora
Para seu pai, o genro ideal.


Valei-me, Santa Luzia!

Pra onde olho vejo os olhos dela
E até nos sonhos sonho em seu olhar.
Se acordado, eu só penso nela,
Se estou dormindo, ela é meu sonhar.

Quanta eloqüência têm aqueles cílios,
Denunciando o rímel que é um luxo!
Pálpebras cobrem dois lindos gatilhos:
Que, se ela não puxar, eu mesmo puxo.

Pra completar, ei-las: as sobrancelhas,
Que nessa casa da visão celeste
Funcionam como protetoras telhas.

(eu vou dizer, e não fique vermelha)
Vou retirar agora os óculos que veste
E avançar no mel como as abelhas.

11 de abril de 2007

Piercing

Ama, esse meu sentimento é epidêmico:
Eu sou mais um que entra nesta jaula.
A minha idéia já é algo fenomênico:
Poder tocar tuas mãos, no fim da aula.

Esse meu vasto sentimento, ama,
E essa minha idéia, que já virou fato,
Não cabe mais, de grande, em minha cama;
Não cabe nos limites do meu quarto.

Eu já não posso mais ficar comigo,
Circunscrevendo-me a Luiz e a Cláudio
Quero expandir bem mais meu horizonte.

Vou residir todinho em teu umbigo:
Aquietar-me nele e reduzir o áudio:
Beber teu ser no ponto exato: a fonte.

Tua Penugem em Tua Superfície

O que eu quero não está tão fundo.
Meu belo horizonte é uma planície
Por onde vago, feito um vagabundo:
Tua penugem em tua superfície.

Mas como és muito impiedosa, ama,
A mim me negas até um segundo,
Uma migalha . És mesmo desumana
Para comigo, pobre morimbundo.

Pra te ser franco, já perdi a calma.
Me diminuo sempre mendigando;
Reduzo a nada minha biografia.

Já que me distancias de tua alma,
Deixe-me ao menos contemplar, babando,
A tua sinuosa geografia.

Mulher Odontológica

Eu já prevejo com facilidade,
sem ser profeta ou mesmo vidente,
toda uma enxurrada de felicidade
que me virá da força do teu dente,

me judiando e me rasgando a pele,
num delírio sem tamanho, sem medida.
É natural, no afã, que a gente apele
E oscile entre um beijo e uma mordida.

É natural, no amor, qualquer loucura,
E qualquer tipo de selvageria
Passa de imediato a ter lógica.

Minha formatação se configura
(eu já sabia que você riria)
Só pra você, mulher odontológica!

Minha Morenice na tua Brancura

Nossa correspondência é inconteste.
A gente em tudo tá tão toda, ama;
Olhe: de norte a sul, de leste a oeste
Sempre o mesmo calor, a mesma chama,

Que a mim me toma como uma peste.
E esse mau, querida, não tem cura.
Equivale a u´a mão que a luva veste,
Ou a minha morenice em tua brancura.

Posso acreditar, amada, que inda reste
No seu íntimo algum leve receio
Ou algum tipo de medo: é ou não é?

Pois eu lhe digo, faça igual Tomé
(o coração palpita no teu seio?)
Ou você crê, meu bem, ou... faz um teste.

Tratado de Tordesilhas

Eu já me sinto seu proprietário,
Por mais machista que isto lhe pareça.
E já pedi a bênção do vigário
pra que esse amor vingue, cresça e floresça.

Eu já me sinto seu único dono,
Por mais esnobe que se lhe apresente.
E sei que quando despertar do sono
Terei, ao lado, Tu, o meu presente.

Vou desatar a fita que a enlaça,
Rasgando o papel que se lhe cobre,
Descobrindo-lhe, querida, toda a graça...

E agora, que o "presente" todo enlaço,
Serás cativa duma alma nobre,
E envolvida por braços de aço.

Tá, eu explico!

Essa mudança abrupta de prosa pra poesia tem motivos que o próprio conteúdo explica. E é mais forte que eu. Mas não vou antecipar detalhes até que as coisas se concretizem.

Estúpido Cupido

Para Eliane (minha Psiquê preferida)

Sei que o universo todo me apóia
E tenho, a meu favor, o próprio Eros.
Eu te observo como a uma jóia
(que pena que meu saldo é só de zeros)

Embora brinque, sou sempre sincero
Nessa minha incômoda paranóia:
Querer você, azinha, como eu quero,
É ter uma fratura na tipóia.

Esse querer intenso já ecoa,
Feito um brado, em todos os recantos.
(feito Dom Pedro e seu braço erguido)

E esse brado intenso já lhe soa
Suave e harmonioso como um canto;
E eu já te tenho sem jamais ter tido.

8 de abril de 2007

Ridículo, Demasiado Ridículo

Para Nietzsche


As vezes – e são muitas essas vezes – acho ridículo o modo como nos comportamos. E acho ridículas muitas coisas que falo e penso e faço. Abunda na humanidade um bando de coisas ridículas. Tudo bem que há muita coisa que é maravilhosa. E são inúmeras as coisas maravilhosas que faço e penso e falo. Queiram vocês ou não. Para cada coisa ridícula que faço posso apontar outra que seja grandiosa ou, no mínimo, nobre. Querem exemplos? Pois bem. Todas as vezes que eu e Thereza estamos na praia, levanto algum tema polêmico sobre a existência, sobre razões e fins ou qualquer aspecto em defesa da metafísica. Isso é ridículo. Por acaso, praia é lugar de filosofar!? Convenhamos. Por outro lado, leio com ela os romances do Graciliano. Isto é nobre. E não me venham com esse papo de que, no fundo, no fundo, é puro egoísmo. É nobre e pronto.

Não sei dizer se sou mais ridículo que nobre, ou mais nobre que ridículo. Eis uma contabilidade difícil. Vou dar 50% pra cada lado. Thereza dirá que essa contabilidade é ridícula e que até mesmo escrever sobre isso é ridículo. Nesse caso, acho que o percentual aumenta pro lado do ridículo. Ou seja, sou mais ridículo do que deveria ou poderia. Mas – eis uma coisa nobre – admito que sou ridículo. Ridículo seria não admitir a própria ridicularidade. Nesse caso, agora que entendo como nobre o gesto de reconhecer que sou ridículo, o percentual aumenta para o lado da nobreza. Empate.

Fica a pergunta: sou relativamente nobre ou relativamente ridículo. Essa pergunta é ridícula, eu sei. Logo, sou relativamente ridículo. Reconheço. Mas, se reconheço que – fazendo essa pergunta ridícula – sou nobre, deixo de ser relativamente ridículo para ser relativamente nobre. Vão dizer: mas isso é mesma coisa! Não é, não. Se digo que sou relativamente ridículo, o que pesa na mente do ouvinte (ledinte) é a palavra ridículo. Se digo que sou relativamente nobre, nobre é a palavra que fica na mente de quem ouve (lê). Bem sei que, no fundo, se é relativo, pende igualmente para ambos os lados. Mas isso é relativo. E ridículo.

Pois vou contar um caso para vocês. Caso esse que contei para Thereza. Ela achou ridículo, mas pode ser que não seja.

Sempre que vamos ao shopping (qualquer shopping), uma força misteriosa (gravitacionalmente misteriosa) nos conduz para a livraria (qualquer livraria). Eu, para ler coisas ridículas, avaliar a arte gráfica das capas, a escolha das fontes e apreciar os títulos (dar título a um livro é tarefa árdua). Ela, Thereza, para ler as fofocas de todas as revistas semanais (o que tem lá seu grau de ridicularidade). No último final de semana, por acaso, deparamo-nos, na Siciliano (é que eles tem um café expresso muito expressivo), com o stand dos mais lidos. Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus, Homens Fazem Sexo, Mulheres Fazem Amor. Coisas do gênero. Thereza sabia que não me calaria diante de títulos como esses. E já foi logo dizendo: “Pode falar. Eu sei que sua língua tá coçando”. Todas as minhas mulheres me acham previsível. Thereza já lê meus pensamentos. De modo que isso me poupa de falar muito. Tem coisa mais ridícula do que ser previsível? Mas ela não perde por esperar! Qualquer dia desses vou ficar nu lá na Estação da Central da Lapa e quero ver se ela vai dizer que já esperava por isso. Tem coisa mais ridícula e imprevisível que um sujeito nu na Estação da Lapa, ali pelas 18:30h? Não tem.

Lá vou eu, com minha infalível e ridícula previsibilidade, contar pra ela o fato verídico e ridículo. Foi assim, Thereza: Eu estava no Setor Comercial Sul, em Brasília, indo pro trabalho. Eram cerca de 13:30h, eu já havia almoçado e ia pro escritório. Como todos sabem, o Setor Comercial virou um camelódromo. Lá, vende-se de tudo, inclusive livros velhos, que era o produto que me levara ao local. Ali, entre livros velhos, manuseando aquele armazém ambulante de ácaros de todas as espécies, vi que todo mundo, menos eu, estava olhando para uma cena ridícula. Um policial conduzia uma mulher que se escabelava, fora de si, e que xingava encolerizada uma outra mulher. Essa outra, conduzida por outro policial, também se escabelava, também estava fora de si, e respondia aos xingamento da primeira. Logo atrás, conduzido por um terceiro policial, vinha um sujeito magricela, que andava normalmente, embora a roupa estivesse em desalinho e o cabelo idem. O detalhe – o mais safado dos detalhes – é que o Magricela em Desalinho trazia, num canto recôndito da boca (indisfarçável como o sorriso da Monalisa), um rizinho safado, entende? Uma espécie de discreta alegria. Um quê de vaidade. Uma demonstração ridícula de que estava gostando, aquele verme.

Momentos antes – conforme relato dramático de um engraxate –, ele, o Magricela em Desalinho, tentou, inutilmente, apartar as duas mulheres, que se engalfinhavam. Uma, sua mulher. A outra, sua amante.

Sua mulher fora informada – por um anônimo – que ele, o Magricela em Desalinho, naquela manhã, naquela hora, naquele local, iria se encontrar com a outra. Não deu outra. Ela, a titular, já tinha alguns indícios que davam como líquido e certo o adultério, mas ela – como boa devota de São Thomé – só se conformaria se visse, com seus próprios olhos, seu homem com a outra. Não deu outra. Após certificar-se que aqueles dois eram quem pensava – momento em que um misto de ira e dor se apoderou de sua alma – segurou com firmeza a alça de sua bolsa (que deveria estar pesada, como convém às bolsas em geral), girou-a no ar uma vez, duas, direcionando-a para sua rival, indo, por fim, atingir a região logo acima da bunda. Antes que tal região fosse atingida, quando a bolsa ainda se dirigia à região suprabundar, o Magricela em Desalinho pode acompanhar, com seu olhar desesperador, a bolsa em seu movimento inevitável rumo às costas da outra. Não deu outra. Pela cara de dor que fez o engraxate ao relatar esse trecho do episódio, pude deduzir que – naquela região – se formaria um hematoma de tamanho médio. Mas a coisa não parou por ai não, Thereza. A bolsa – agora autônoma - não se continha em si de euforia e satisfação, atingindo regiões nunca dantes atingidas, gerando hematomas de tamanho GG. A bolsa autônoma poderia ser vista, em sua ira bolsífera, por sobre as cabeças dos transeuntes. Sincronicamente, a esposa se referia à amante com adjetivos inefáveis. Um deles – só para exemplificar, Thereza – era “vagabunda”. Os demais iam daí pra pior; muito pior. Mas seria ridículo reproduzi-los numa livraria. Você bem sabe com sou discreto, Thereza.

O Magricelo em Desalinho, diante de tal situação, tentou conter a ira mortal de sua esposa e a aplacar a fúria incansável da bolsa; ao mesmo tempo, súplice, rogava à sua amante que evacuasse do local, rápido como quem furta, a fim de evitar um óbito ou coisa menor. Essa, por sua vez, defendia-se das bolsadas e respondia aos xingamentos da amante com outros de igual teor. O Magricela em Desalinho, em face de batalha tão sangrenta, viu-se incapaz de pacificar as combatentes. Quero acreditar, Thereza, que ele deve ter filosofado, de si para si: “Por Zeus, antes uma em paz que duas em conflito”. Todo pensamento profundo nasce de situações de conflito. Essa frase é minha, Thereza.

Por esse tempo, os expectadores já se aglomeravam em torno do Trio Parada Dura, ora incentivando a esposa, ora vaiando o Magricela em Desalinho, ora desqualificando a moral da outra, que lhes apontava o “maior de todos”, num gesto que seria ridículo, se não fosse obsceno.

O relato do engraxate estava me deixando preocupado com meu horário. Foi quando alguém – movido pela ânsia de harmonia, paz e concórdia – chamou a polícia, que veio e conduziu a tríade à delegacia. À frente, como disse antes, a esposa, seguida da amante, seguida do Magricela em Desalinho, e seu ridículo rizinho monalísico.

Agradeci ao engraxate pelo pungente e minucioso relato e fui trabalhar. Chego no escritório e conto para Karlota a história e pergunto, ao final: Como é que duas mulheres podem se prestar a tamanho ridículo por conta de um sujeito igualmente ridículo?

- Cláudio, você é ingênuo.

Acreditei que ela fosse dizer “ridículo”.

- ?

- Elas não estavam brigando por ele, bestinha. A esposa estava brigando não por ele, mas pelo fato de a amante ter tomado o que era seu. Não importa se o que era seu era um Magricela em Desalinho. O que estava em jogo era uma questão de brio. A outra invadira seu espaço. A outra – a amante - também não brigava por ele. Ela queria era mostrar para a outra que ela tinha uma cota de participação, e que ele, o Magricela em Desalinho, estava com ela e não com sua rival.

Eu tinha outras coisas a perguntar, mas temi que Karlota adicionasse ao “ingênuo” outros adjetivos. Sentei na minha mesa, liguei o computador e fiquei pensando uma série de coisas ridículas.

Thereza olhou-me e perguntou:

- Acabou?

- Sim, acabou.

- Certo. Olha só, tem uma reportagem da Quem dizendo que a Preta Gil...

De fato, sou de marte. Relativamente ridículo. Previsível, ridiculamente previsível.

1 de abril de 2007

Sete Talagadas

Para Alison


Algumas verdades, que aqui aponto, estão levemente contaminadas com algumas pitadas de mentira. E há mentiras, que aqui exponho, cuja tela invariavelmente é emoldurada com verdades incontestáveis. É que, por vezes, fatos verdadeiros carecem de algumas inverdades, que funcionam mais como cosmético, têm a função acessória de dar ao fato algum brilho. Mulheres bonitas, quando fazem sua pintura, não ganham muito em beleza, mas aqueles cosméticos agregam um discreto valor ao cenário. E, quanto aos fatos mentirosos, eles pedem que os contextualizemos com um mínimo de verossimilhança; para tanto, alguma verdade pode ajudar.

Quando Rogério – num e-mail que ontem me mandou - me contou a história de sua “iniciação” e o que viria depois, pude constatar que aquelas verdades tinham muito de mentira, ou, se eu estiver enganado, muitas daquelas mentiras estavam contaminadas da mais pura verdade.

Rogerio é funcionário da Infraero em Brasília. Sua vida está dividida entre cuidar de seus sete gatos (Parmênides, Heráclito, Homero, Nietzsche, Platão, Penélope e Mimi), trabalhar e escrever crônicas para o Jornal Radical News.

Sei que ele não vai se importar se eu publicar aqui trechos de seu e-mail, cínico que é.

“Luiz, se quer saber, minha brevíssima história com Socorro é uma mentira com altíssimo teor de verdade. Mas eu bem quisera que fosse uma verdade recheada de mentira por todos os lados. Deixo por sua conta, sabidinho, separar o joio do trigo, cristãos dos gentios, gregos de bárbaros.

Meu namoro com Rosane não durou mais que seis meses. Quando terminou, tive vinte dias para restabelecer-me. Sofri, óbvio. Primeiro porque fora ela que me iniciara nos prazeres da carne – desvirginou-me. Segundo porque ela era uma loira linda, dotada de uma arquitetura capaz mover montanhas.

Naquela tarde em que ela me disse que não sentia mais nada por mim, desesperado, fui ao cinema me distrair e tentar esquecer Rosane e seus encantos mil. Em cartaz, um filme que ainda não vira: Seven – Os sete pecados capitais. Pelo título, previ que fosse algum filme de aventura. E aventura envolvendo, obviamente, drogas, policiais, detetives, Robert De Niro, Samuel Lee Jackson, Nova York, etc. Entrei. E me arrependi. O filme, do começo ao fim, era tudo que uma alma em frangalhos precisava para afundar-se ainda mais no lamaçal da dor. Saí da sala com meu sofrimento ampliado cinco vezes. Era tarde quando cheguei em casa. Entrei cabisbaixo e fui pro quarto que dividia com meu irmão, Nonato.

Passados cinco anos sem que nos víssemos ou que nos falássemos, um amigo comum, Sandro, encontrando-me, disse-me que Rosane há muito queria ver-me, mas não tinha nenhum contato. Liguei para ela. “Rogériooooo!!! Não a-cre-di-tooooo!!!”, fez ela, surpresa. “Trate de vir em minha casa. Desde que você sumiu, milhões de coisas aconteceram. Vou te buscar onde você estiver”. De fato, depois que nos vimos, constatei que milhões de coisas tinham acontecido. Mas o mais impressionante, o que mais me deixou mais perplexo foi o fato de ela ter se tornado cafetina. Sim, cafetina. A mulher que eu amei e que me iniciara e que era maravilhosa, tornara-se intermediária, cupido, ponto de apoio, Eros encarnado.


Seu marido, Jorge, era seu sócio. Sua função era basicamente fazer sala para os homens que iam à sua casa. Rosane era responsável pelo intercâmbio.


Quando cheguei em sua casa, ali pelas 20:00h, já estavam ali uns três sujeitos e mais duas garotas, além de Jorge e Rosane.


Rosane perdera muito de seu encanto, mas ainda havia, nítidos, resquícios daquela que amei como um louco, e que como um louco me deixou.


Jorge, hospitaleiro, recebeu-me já com uma lata de cerveja. Tomei quatro latinhas. Incansável no intento de embebedar-me, lá vem Jorge com um copo de vinho, que tomei.


Vamos jogar palitinho? Era Jorge, o incansável, convidando seus convidados. “Só tem uma coisa: é apostado. Quem perder toma uma talagada de pinga. Pura.” Um litro de cachaça foi colocado no centro. Eu, como que predestinado ao sofrimento, perdi sete partidas, uma atrás da outra. Meu saldo agora era: quatro latas de cerveja, dois copos de vinho, sete talagada de pinga. O primeiro indício que tive de que as coisas não iam bem foi quando minhas frases não iam até o final. Sim, estava bêbado.


Nesse ínterim, um gol quadrado e verde estaciona. Era meia-noite. Rosane, inquieta, mais que depressa se aproximou de meu ouvido e disse: “É ela.” Disse-o como se tivéssemos um pacto prévio, como se tivéssemos arquitetado um encontro, como se eu, pelo simples fato de visitá-la, deixasse nas entrelinhas a insinuação de que iria necessitar de seus serviços de cafetina. Ora, eu estava ali em nome dos velhos tempos, caramba! Fui porque me era importante a sua existência no meu passado. Fui para resgatar as boas lembranças de uma história de amor fracassada, ora essa! Dizendo-me “é ela”, Rosane jogou um balde de água fria nos meus poéticos intentos. Falou mais alto nela seu profissionalismo e, pareceu-me, uma espécie de cordialidade, uma espécie de boas-vindas, manifesta em forma de prestação de serviços de alcova. Serviços esses, Luiz, que em momento algum, em momento algum insinuei que quisesse!


O segundo indício de que eu não estava bem foi quando tentei levantar-me e o mundo à minha volta perdera a fixidez.


Fui apresentado a Socorro que, de pronto, pediu que a chamasse de Help, como era vulgarmente conhecida. “Oi, Help.” Mais que depressa, e sem qualquer discrição, tanto Rosane quanto Jorge providenciaram que eu ficasse sozinho com Socorro, digo, Help. Ligaram o som e foram para outro cômodo da casa. E ficaram à espreita, indiscretamente à espreita, visivelmente à espreita, já que até eu, que estava bêbado, percebi a movimentação que denunciava o ardil; um ardil cheio de cochichos, risinhos e pedidos de silêncio aos indiscretos risonhos (que eram os figurantes contratados para dar aquela idéia de amigos que se reúnem para jogar palitinho). Um bando de safados, Luiz.


Às minhas frases inconclusas, Socorro, digo, Help respondia com monossílabos. Às suas perguntas dissílabas, eu respondia com um olhar pretensamente sensual, pretensamente safado, pretensamente canalha, pretensamente cínico. Os resíduos de lucidez que ainda me restavam diziam-me que, para situações como aquelas, era necessário ao homem (usuário de serviços da alcova) que incorporasse à sua personalidade as qualidades acima: sensual, safado, canalha e cínico. É bem verdade que nunca fui um bom ator, Luiz. E eu não tenho a menor idéia se fui sucesso de crítica... e tenho dúvidas se o fui sucesso de público: Help.


Socorro, digo, Help, em face de minha indecisão, e vendo que, se ela não tomasse uma medida, daquele mato não sairia coelho, disse: “Vamo?”. Vamo, disse eu. Mais que depressa, como que num passe de mágica, Rosane surge e, como quem estivesse participando do diálogo, diz: “... mas é o seguinte, Rogério, ela vai dirigindo... ela deixa o carro dela aqui na porta e vocês vão no seu.” Esse foi o terceiro indício de que eu não estava em condições do que quer que fosse.


Entramos no carro e ela dirigiu até o centro de Taguatinga. Lá, como se não bastasse, Socorro, digo, Help me vem com mais cerveja. Tomei. Depois veio com outra bebida que eu juro para você, Luiz, não era água.


Acordei com o sol inclemente batendo em minha cara. O carro, era o meu. O lugar, era a rua da casa de Rosane. À minha esquerda, um corpo desconhecido. Era o quarto indício de que eu estava, de fato, fora de mim nas horas anteriores. Eu estava todo suado. A cabeça doía. Olhando a mulher no banco da esquerda, que estava totalmente reclinado, vasculhei na memória alguma evidência, algum elemento que a fizesse familiar ou, no mínimo, conhecida. Nada. E, agora que estava lúcido, enxergava melhor. A mulher tinha os cabelos num redemoinho tsunâmico e suava feito cuscuz.


Como já era manhã de domingo, vi grupos de pessoas que passavam olhando para dentro do carro. Eram Testemunhas de Jeová. Testemunhas de Jeová sempre andam em grupos. E, sempre que podem, olham para dentro de carros onde há suspeita de fornicação. Abri o vidro do carro. Socorro, digo, Help acordou. Limpou com o braço uma baba que lhe escorria pelo canto esquerdo da boca; tentou, inutilmente, aplacar a fúria de seus cabelos, que estavam num estado capilarmente lastimável, e devolveu a saia à sua original condição de recato.


Nesse momento, Luiz, penso em todas as besteiras que um homem comete. E penso em mim, como o maior desses homens. Sim, porque eu sou um besta, Luiz.


Luiz, quando ela, afinal, resolveu falar alguma coisa, percebi que, pela regularidade de seus dentes (inferiores e superiores), nenhum deles era resultado da natureza. Nenhum deles, Luiz, era verdadeiro. Se fossem, teríamos uma proeza da natureza, teríamos a perfeição (od) ontológica.


Esse, Luiz, foi o quinto indício de que eu estava no mais alto grau de bebedeira que uma besta quadrada pode alcançar.


Talvez, Luiz, você queira saber o que resultou de tudo isso. Só lhe digo uma coisa: naquela mesma manhã, Rosane, a profissional Rosane, me ligou. “E aí, comeu?”.


Dentro de mim, minha alma não podia aceitar o ponto a que cheguei e o ponto a que chegou Rosane. Pareceu-me que, associado à minha ultra-ressaca, uma desilusão e uma tremenda decepção com a vida se apoderavam de mim. Naquele torpor, naquela situação terrível, Luiz, ironicamente, precisei de socorro, digo, help.

29 de março de 2007

As Rosas Não Falam

Para Aninha


Nem todo mundo nasce com a bunda pra lua. Alguns, para ganhar a vida, têm de ralar. E muito. Outros, o dinheiro parece que brota no fundo do quintal, ou mesmo em outros quintais, pouco importa. Muitos, para existir – e tão somente para existir – desdobram-se, multiplicam-se. Felizmente, não é só o dinheiro que dá alegria. Ajuda, é bem verdade. Mas há muita gente endinheirada infeliz, e eu tenho amigos que são cobradores de ônibus e vivem sorrindo. Pedro é uma dessas pessoas. Vive do salário de caixa nas Lojas Americanas e das aulas particulares de dança de salão. E é feliz. Nas Americanas, por pior que fosse o salário, ele não via a hora de ir pro trabalho. Gostava dos colegas de trabalho. Havia entre eles uma silenciosa cumplicidade. Tinham o hábito de reparar nas roupas e no biotipo dos clientes. Riam das gordas, se fossem gordas em demasia; riam das magras, se magras além do aceitável. Riam dos cabelos, dos sapatos. Riam de tudo. Por dentro, claro. Além disso, havia o hábito de avaliar os hábitos de cada cliente pelas compras. Aprenderam a deduzir o tamanho das famílias pelas compras. Enfim, eram especialistas no comportamento econômico dos clientes. E eram capazes de traçar o perfil de qualquer um deles a partir das compras e da regularidade com que compravam. A única incógnita ainda existente era um sujeito que ia toda semana só pra comprar um tablete de Chocolate Meio Amargo da Nestlé. Um mistério insolúvel.

Entrava às 08 na loja, saia às 17:30. À noite, de segunda a quinta, estava comprometido com suas pupilas: Arlete Cintra, Helena Navarro, Pâmela Valente, Ana Márcia, Delania, Júlia Salles, Maria Auxiliadora e Daniela Paiva. Eram duas aulas por noite. A primeira aula das 19:30 às 21:00 e a segunda das 21:30 às 23:00. Na segunda, Arlete e Helena; na terça, Pámela e Ana Márcia; na quarta, Delania e Júlia; na quinta, Dora e Dani. A sexta estava reservada para curtição, que ninguém é de ferro.

Arlete Cintra é gerente geral da Loja em que trabalha. Foi ela quem lhe disse que tinha uma amiga que estava querendo aprender dança de salão, mas, tímida, queria que fossem aulas particulares. Pedro não sabia que iria se apaixonar por sua aluna. Helena, a primeira vez que ele foi à sua casa para a aula inaugural, arrumou os móveis de tal modo que houvesse espaço para os movimentos. Pouca luz, para dar um clima tipo dançante (se é que tal clima pode existir). Pedro trazia consigo um estojo contendo o CD com a seleção de músicas apropriadas. Quando ela abriu a porta, ali pelas 09:20 daquela segunda-feira, ele pode sentir seu perfume embriagador penetrando-lhe as narinas. Dolce & Gabbana. E o vestido! Que lindo vestido! E que abertura tinha! Entrou, meio desconcertado, meio ousado... Ela também sem jeito. Eles se sentaram e ela lhe serviu um suco de laranja. Ele explicou-lhe seu método de ensino e deu as dicas de praxe.

Posso usar seu aparelho de som? Claro. Meu repertório é só de músicas antigas, coisas que meu pai cantava. Boleros, tangos, valsas, sambas, e por ai vai... Por mim, tudo bem. Podemos começar?

Bate outra vez, com esperanças o meu
coração...

Postura. A mão, sempre nessa altura. Deixe o braço paralelo com seu corpo...
isso!
Assim? Exato.

Pois já vai terminando o verão em
mim...

Helena estava triplamente constrangida. Nunca recebia homens em sua casa, muito menos um estranho. E aquele estranho estava muito próximo... próximo o suficiente para tocar seu corpo... e tocava seu corpo com um sensualidade que só a dança propicia. Você está tensa? Um pouco. É só no início. Espero... Veja só, os comandos de mudança de movimentos são dados pela minha mão esquerda, ok? Ok. Ponha a sua mão esquerda no meu ombro ... isso... um pouco
mais afastada do pescoço... exato... sinta a música...

Volto ao jardim, com a
certeza que devo
chorar...

Pedro já tinha experiência suficiente para saber quem tinha ou não futuro na dança. Era-lhe bastante olhar para suas pretensas alunas para deduzir quanto de trabalho elas lhe dariam. Duas de suas alunas eram duras como um poste. E, para alguns casos, só há uma solução: esquecer. Helena, felizmente, tinha um gingado que prometia... Você não vai falar dois pra lá e dois pra cá? Perguntou Helena, tentando parecer cômica e para diminuir a tensão. Nessa música, não... De início, a gente vai no “um pra lá, um pra cá”... procure não olhar para os pés... quando
eu der o sinal, gire, ok?
Ok. Agora. Foi mal... Não tem problema... veja só: quando eu tiro o pé, você já arrasta o seu para o mesmo lugar... assim... tire o pé... isso... novamente... isso... agora, faça isso sem olhar para baixo...

Pois bem sei que não queres voltar para
mim...


Helena estava com o misto de tensão e alegria. A aprovação de Pedro a deixava orgulhosa de si mesma. Agradava-lhe a idéia, na dança, de ser conduzida, de ser a parte frágil. Na vida, no trabalho e nas suas relações, era ela quem dava as cartas, ela quem dirigia, ela quem liderava. Ali, dentro sua própria casa, subordinava-se ao comando daquele estranho... Você é leve, facilita nos movimentos... opa, não pode olhar para baixo... isso... girando... um... dois.... três... agora... isso... beleza!! Ela jurara a si mesma que não passaria dos 52 quilos. Foi bom ouvir de Pedro que ela era leve...

Queixo-me às rosas, mas que bobagem! As rosas não
falam...

Se você preferir tirar o sapato, tudo bem... Prefiro. [Aquele scarpin
era novo, e ela não tinha band-aid]. Que alívio! Vamos lá? Vamos. Nesse ritmo, procure rebolar menos, ok? Deixe que seu corpo sinuosamente seja conduzido... mantenha os ombros firmes e a cintura à vontade...

Aquela referência ao seu rebolado deixou-a constrangida. Era como se... como se ele estivesse atento aos seus movimentos... sentiu-se de certo modo invadida... , levemente invadida, além disso, havia um quê de discreta repreensão, coisa com a qual ela não estava acostumada.

Simplesmente, as rosas exalam o perfume que roubam
de ti!

Quer tomar alguma coisa?, perguntou Helena. Sim, mais suco de laranja. Só um minuto.

Pedro não pode deixar de observar, quando ela se dirigia à cozinha, seu rebolado.
Ela voltou, dizendo que estava com uma leve dor de cabeça. Ele entendeu o recado. Segunda-feira então? Sim, mas não estou lhe mandando embora... Eu sei. Fique um pouco mais... nós mal começamos a aula... A primeira aula é sempre atípica. É mais pra gente se conhecer. Mas prepare-se para suar na próxima aula. Tudo bem.

Devias vir, para ver os meus olhos tristonhos, e
quem sabe sonhavas meus sonhos, por fim...

Na quarta-aula, foi impossível evitar aquele beijo. Viraram namorados. Etc. Três meses depois, estavam de férias em Florianópolis. Ele lhe dera um vestido lindo – mas por demais decotado – para uma festa dançante em Floripa... lilás... vestido que ela não usou. O frio cortante daquele junho era totalmente impeditivo...

Eram felizes, até certo ponto. Algo, no entanto, a incomodava. Ele só tinha alunas. E elas ligavam. E ele ia em suas casas. E dançava com elas. E tocava em seus corpos. E elas, aquelas sirigaitas, com certeza deviam insinuar-se! Com certeza ele, que não é santo, devia aproveita-se da situação. Lástima. Sozinho na casa delas, dançando com elas, corpo a corpo, rosto a rosto, mão na cintura. Homem não presta!

Suas noites eram um inferno. Chegava do escritório. Tomava seu banho. E ficava pensando em tudo que podia estar acontecendo. Em Arlete ela confiava, afinal de contas, eram amigas. Mas e essa tal de Pámela, que mandava recados para Pedro, chamando-o de Pierre? E essa tal de Ana Márcia, que só tinha 17? E a tal da Júlia, que ele dizia ser uma coroa turbinada? E a megera da Auxiliadora, que ele chamava de poste mas dizia que era bonita de rosto? E a tal da Delania, loirinha de cabelos lisos e mais magra que ela? E a tal da Daniela, mulata que sabia sambar mas que queria se aperfeiçoar? Pra completar, cada uma morava nos extremos da cidade. E para piorar, ele desligava o celular durante as aulas. Diz que é um profissional. Profissional... E que suas clientes merecem respeito. Estão pagando pelo serviço. Respeito. Respeito uma pinóia! Bando de vagabundas. Tudo piriguete!

Até que numa fatídica madrugada de sábado, toca o celular de Pedro, que estava dormindo. Ela o chama. Ele atende, sonolento. Era Ana Márcia, 17. Pelas respostas monossilábicas dele ela deduziu que a ligação não era gratuita. Pelo seu constrangimento, ela deduziu que estava estabelecido um conflito entre seus quase 29 (ela fará aniversário na quinta-feira, dois dias depois) e os 17 da cachorra da Ana Márcia. Virou para o lado, de costas para Pedro. Silenciou-se, engolindo a dor daquelas evidências. E chorou. Silenciosamente. Ele tentou abraçá-la, mas ela retirou-se seu braço. Ele sabia que nessas horas, tudo que ele dissesse seria usado contra ele. Acomodou-se no seu canto. Ali estavam os dois, acordados, juntos na penumbra daquele quarto. "Separados por léguas e léguas de distância".

18 de março de 2007

Eu e Luiz


Para Karina Yuri Ogawa




Dois meses. Foi desesperadora a certeza da gravidez. Ela tinha suspeitas,
afinal de contas, nunca havia atrasado tanto. Mas agora, tendo às mãos o
resultado dos exames, o mundo desabava, feito placas de gelo gigantes de um
monumental iceberg. Aos 18 anos, Vânia não podia acreditar que era seu nome que
estava naquele resultado de exame, em negrito (arial narrow 11). Um tumulto de
pensamentos se atropelavam na rua estreita de sua jovem, tumultuada cabeça. Na
clínica, fora de si, quis falar com o médico, Dr. Heráclito. Aguarde um
instante, diz a assistente.

Dois meses. Seu filho já tinha dois meses. A realidade tinha dois meses. Dr. Heráclito, homem experimentado, lera nos olhos de Vânia todo o desespero. Quis dizer algo consolador, mas nunca soube lidar com emoções. Se soubesse, teria sido psicólogo e não clínico. Mas apertou
sua mão e disse-lhe que era uma vida que ela carregava no ventre, uma vida que
merecia todo seu amor, e que deveria ser recebida como uma bênção. Disse isso,
mas queria dizer outras coisas. Queria arrancar daqueles olhos vidrados a
angústia, o peso.

Ainda garotinha, 10, 12 anos, Vânia brincava com
as amigas, dizendo que, quando se casasse, seu filho se chamaria Luiz Henrique.
Hoje, naquela linda manhã de sol em Brasília, ela só via nuvens escuras e
trovoadas, e raios e um céu sem teto. Luiz Henrique tinha dois meses e ela não
tinha a menor idéia de como iria apresentá-lo a seus pais. Aliás, ela não tinha
idéia de nada. A rua estreita de sua cabeça ainda estava com um tremendo
engarrafamento. Ponto de Ônibus da 116 Norte.

Foi no carnaval de
Olinda que ela conhecera, três meses antes, Maurício. Em meio à multidão de
foliões, aquele rosto lhe chamara a atenção. Um quê de enigmática timidez se
entrevia nos olhos daquele estranho. Maurício era funcionário dos Correios em
Recife. Sempre preferiu o carnaval mais ameno de Olinda. Gente boa, Maurício.
Jogava seu futebol. Bebia sua cerveja. Tinha lá seus casos, mas a titular mesmo
era Carlinha. Carlinha, evangélica, jamais ia a carnavais. “Tá amarrado!” Ela
até pensou em proibir Maurício de ir, mas Maurício às vezes é muito opinioso e
não gosta de ser mandado por mulher. Esta parte da história, só muito tarde
Vânia viria a conhecer, muito mais tarde.

Vânia estava apaixonada
por alguém absolutamente estranho: o pai de Luiz Henrique. Luiz Henrique, esse
outro alguém-por-vir, era-lhe completamente desconhecido, mas, ironicamente, era
ela mesma, desdobrada, multiplicada, ampliada, extensa, enriquecida. Era ela
mesma, inevitável, real, viva.

Maurício, aquele estranho, que
revolvera suas entranhas, que envolvera sua alma, que lhe prometera amor eterno,
que lhe dera mais atenção que qualquer um poderia ter dado, que a chamava de
princesa, que lhe disse ao ouvidos aquelas palavras encantadas e lindas e
fabulosas e mágicas e... suculentas, que lhe despira com um certo ardor, mas com
uma pressa que ela desejou tivesse sido talvez um pouco mais romântica, um pouco
mais encantada, fabulosa, mágica, lentamente suculenta. Estava amarrada.

Naquela madrugada, no vôo de retorno a Brasília, levava nos olhos
o rosto de Maurício; no coração, algemas; no ventre, Luiz Henrique. Luiz era
filho daquelas palavras mais... suculentas.

Na parada de ônibus,
tinha medo de tocar naquele papel, áspero papel. Tinha medo de pensar no futuro,
áspero futuro. Enquanto chorava, pensava em como daria a notícia em casa.
Lembrou-se de Bruna, sua tia solteirona, irmã de seu pai. Tia Bruna vai me
compreender. Ligou pelo celular. Caixa de mensagens.

Em trinta
minutos ela estará em casa. Mas se eu pudesse voltar atrás e refizesse o meu
passado! Maldito olhar! Maldita enigmática timidez! Malditas palavras
suculentas! Em trinta minutos, em casa. Pai só chega à noite. Mãe está em casa.
Mas se o motorista fosse misericordioso, levá-la-ia para longe, muito longe. Lá
onde não houvesse pensamentos, nem placas gigantes de icebegs caindo lenta e
drasticamente.

Assusta-se com a frenagem brusca do ônibus.
Taguatinga-Sul (Via Católica). É meu ônibus. Entra. Sobe devagar, está
transportando Luiz Henrique. Há tanta tranqüilidade no rosto dessas pessoas
sentadas e agarradas no ferro do ônibus! Bando de insensíveis! Será que não vêem
que quero ajuda e que estou desesperada? Será que algum cavalheiro vai lhe dar
lugar? Afinal de contas, ela está grávida. Custa ser gentil? Um senhor lhe cede
o lugar. Lera seus pensamentos. Agradece. Senta-se. Vânia esboça justificativas
para sua mãe. Pensa no drama que fará seu pai. “Grávida! Como assim, Vânia?
Grávida de quem, Vânia, se você nem namorado tem?!”
. Pensa nas respostas que
dará. “Minha filha, tanto que eu te pedi para não ir para Recife! Tanto que eu
te falei para não ir, Vânia! Vânia, quem é o pai desse menino, Vânia? Pelo amor
de Deus, Vânia!”
Pensa em sua mãe intervindo: “Calma, amor, calma!” “Calma como,
Aninha? Calma como?”. “A menina tá chorando, Amor!”


Era verdade,
seu pai não queria que ela fosse, muito menos com as meninas, Soninha e Talita.
Talita é louca; Soninha, maluca. Pensa em todos os comentários e em todos os
depoimentos e em todas as pessoas curiosas.

Ouve o barulho das
águas do oceano a cada queda de cada placa de cada gigante iceberg. Maurício não
tem celular, não gosta de ser controlado, monitorado. Maurício é muito opinioso,
e não gosta de usar preservativo. Tinha lá suas razões. Maurício é saudável. O
pai de Luiz Henrique conhece Recife inteira, entrega cartas. ECT. Farda amarela.
Talvez ele também entregue resultados de exames. Quantas placas gigantes afundam
lentamente a cada instante? Em quinze minutos, estaremos em casa. Nós dois.
Eu... e Luiz.

16 de março de 2007

Lembra de Mim

Para Beatriz Brüehmüeller



Helena sabia que a turma do escritório não deixaria passar em branco seu aniversário de 29 anos. Flávia, sua assistente – e confidente para assuntos inconfessáveis – deixara transparecer que havia uma surpresa sendo arquitetada. Por isso, pela certeza de uma pequena festa em sua homenagem – e ainda porque merecia, ora essa! –, agendou uma escovinha para as 09:00 horas e escolheu seu vestido lilás – presente que Pedro lhe dera quando do passeio que fizeram juntos a Florianópolis e que ela não usou porque, no frio daquele junho, era impraticável aquele decote. Escovinha, brincos afro e a sandália preta de salto agulha e adereços lilases. E um colar solitário. A única inconveniência era dirigir. Aquela sandália teimava em ficar no intervalo entre o acelerador e o freio. Resolve dirigir descalça. Melhor assim. Garagem do prédio onde trabalha. Elevador. Décimo terceiro andar. Sala oito. Departamento de Marketing. Não sabe contabilizar quantos elogios recebeu desde que estacionou até sentar-se em sua mesa. Só Pedro não estava lá para vê-la. E me olhar com aquele olhar de quem me despe. Lástima. “Amiga! U-lá-lá!”. É Flávia, carregando um buquê de flores. Presente do Pedro. Os colegas do departamento deixam transparecer que não querem transparecer que estão a postos para irem à sala de reuniões, onde Flávia já organizou a festa hipoteticamente surpresa. “Minha filha, só porque é seu aniversário, tinha que atrasar três horas? O chefe tá uma arara contigo. Ele está na sala de reuniões e quer todo o material da campanha de final de ano. Deixa eu te dar um abraço forte!!”. Ela sabe o que a espera. Dá um tempo para que o pessoal tenha condições de simular naturalidade ao se aglomerar na sala de reuniões e vai para lá com sua pasta da campanha. Abre a porta e é saudada com vivas e aplausos e parabéns e abraços e elogios etc. Abre um sorriso e faz um ar de surpresa nada convincente. Livros e CDs e DVDs. Presentes. Que bom que o Raul teve o bom gosto de presenteá-la com o álbum novo do Ivan Lins – Novo Tempo. “Obrigada, gente!”. Não vê a hora de tirar a sandália, que já tomou as devidas providências para desenvolver dois calos naquele sofrido calcanhar. Termina o dia. Garagem. Pés descalços no trânsito. Garagem do seu prédio. Elevador. Quarto andar. Apartamento 401. Tira a chave da bolsa depois de uma procura de três minutos, enquanto seus pés clamam por um divórcio permanente daquela famigerada sandália. Abre a porta aborrecida. “Porque diabos eu não penduro essa bendita chave no pescoço?”. Entra em casa. Ávida, tira a famigerada sandália. Joga a bolsa no sofá. Senta-se. Mas, imediatamente, lembra-se do Ivan Lins. Adora Ivan Lins. A bolsa. Remove o papel de presente. Remove o plástico do CD. Nada mais irritante que a extrema qualidade da plastificação de CDs no Brasil. Arre!. Liga o aparelho de som. Os primeiros acordes do Ivan – “... daquilo que eu sei, nem tudo me deu clareza...” – fazem-na mudar o semblante. O cansaço foi substituído por um prazer que entra pelos ouvidos e sai pelos olhos, olhos que ela acaba de fechar para melhor beber a melodia. Fome. Cozinha. Geladeira. Olha o iogurte. Olha a cerveja. Pensa. Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Maçã. Maçã me convém. Lástima. O custo altíssimo da manutenção dos seus 51 quilos. Volta à geladeira. Toma o iogurte. Respinga no vestido. Lástima. “... quero toda sua pouca castidade...”. Quarto. Toalha. Banheiro. Chuveiro. Sabonete em creme Ekos, da Natura. Shampoo Niely Gold Chocolate (Nutre e deixa os cabelos mais fortes,com maciez e brilho). Pensa em Pedro. O que estará fazendo aquele calhorda neste momento? Deixa a água cair em seu corpo. Mais Ekos da Natura. Vontade de dormir bem aqui. Trinta reais numa escovinha. Trinta reais num investimento que acaba de desfazer-se. Condicionador Niely Gold Chocolate. Creme Hidratante idem. “... sua alegria escandalosa...”. Pedro é uma pedra. “... vontade de passar dos seus limites...”. Toalha. Quarto. “... no novo tempo, apesar dos castigos...”. Senta-se na cama. Camisola. As mulheres, no seu quarto, têm gestos mais lentos que aqueles que fazem na sala, na cozinha, no banheiro. É como se o quarto fosse seu tabernáculo. Sua sagrada masmorra. Há uma infinidade de cremes no compartimento lateral do guarda-roupa. Dove. Leite de Colônia. Remover toda a maquiagem, todo aquele moldura para nada. Nada é Pedro, leitor. Segue-se o creme facial. “Oh, Madalena, o que é meu não se divide...”. Lentamente, ela passa o creme A, que será seguido do creme B. Nas mãos, o creme C. No rosto, o creme C também. Há toda uma ciência no uso dos benditos cremes. E o ritual é feito com tal teatralidade e suavidade e singeleza que temos a impressão de que ela tem a impressão de que há uma platéia observando cada movimento. “... o mar é uma gota comparada ao pranto meu...”. Finda a trajetória dermatológica, segue-se a escolha da roupa de amanhã, sexta. Amanhã é sexta-feira. Minha bota marrom, calça jeans, camisete branca, e o casaco de couro marrom (vai que esfria). Fatal. Pedro. Pedro é uma pedra no meu caminho. “... o que é meu não se divide...” Eu não vou ligar. Não ligo. Ele que ligue, se quiser. Cansei de msn. Porcaria. Vinte e nove anos. Mais alguns dias e Flávia me entregará novo buquê. Lástima. Terei trinta anos. Lástima. “... vai valer a pena ter amanhecido... começar de novo...”. Trinta anos. Sem filhos. Eu pago minhas contas. E sou dona do meu nariz. Trinta anos. 51 quilos. A decisão pela calça jeans e adjacências surpreende pela rapidez. Normalmente, a eleição da roupa do dia seguinte supõe que a platéia pagou caro pelo bilhete e quer drama, muito drama. E nada mais dramático que a inquietação de uma mulher que escolhe uma roupa. Tão lindo o buquê! “... com força e com vontade, a felicidade há de se espalhar...” O buquê ficou no escritório. Deixa lá. Sei lá. Talvez ela precise mostrar a todos que está tudo bem, que eles estão bem. Talvez ela precise que ele saiba que ela colocou as rosas num vaso dágua para dar-lhes sobrevida. Deve ser coisa do subconsciente. Sei lá. São quase dez horas e a maçã/iogurte não foi capaz de preenchê-la. Lástima. Iogurte. Se ele sabia, porque não foi me ver? Porcaria de buquê! “Lembra de mim, a gente sempre se casava ao luar...” Senta-se. Chora. Levanta-se. Não vou chorar. Não vou chorar. Ela é dona do seu nariz. Paga suas contas. Na bolsa, o cartão de Pedro, e sua letra bonita, mas ilegível: “Docinho, as rosas não falam. Parabéns! Pedrito". Grande coisa! E daí que as rosas não falam? Isso lá quer dizer alguma coisa? Lástima. “... tão naufragados e exaustos de amar...”. Deixa cair a toalha. Seu imaginário público está enrubescido. Veste a camisola. Docinho... docinho é sua vó! “... se existe um pouco de prazer em sofrer...” Pedro estava na cidade, claro. Mas foi ela quem disse que não queria vê-lo nem pintado de ouro. “...depende de nós...“ Foi ela que o deixou plantado no Praça de Alimentação. Foi ela quem terminou com tudo. “... que faz tudo prum mundo melhor...” Ela tinha seus motivos. Ele tinha justificativas. Ele entendia seus motivos. Mas ela, implacável, não aceita justificativas. “... que o sol descortine mais as manhãs...”. Apaga a luz. Deita-se. “... se devoravam com a sede dos presídios...” Não pode dormir antes de desligar as luzes. E precisa pegar a bolsa. Reler o cartão de Pedro. Quem sabe haja uma mensagem subliminar ilegível?!. Quem sabe uma marca dágua?! Pega o cartão. A bolsa – repositório de mais coisas que porão da família Adams –, aberta, deixa entrever o celular. Naquele instante, ela se lembra de tê-lo colocado no vibra call durante a reunião. Havia 17 chamadas e uma mensagem de texto. O número: 071-9177-2889. Claro que era o número do Pedro, leitor! Do Bento 16 é que não podia ser, né?!. 17 chamadas. Lástima. A mensagem de texto: “Docinho, te pego às 11:30? Estou te ligando desde meio-dia. Me perdoa, vai! Pedrito”. “... vieste com beijos silvestres colhidos para mim...” Cachorro! Mas ele não tinha culpa, ora essa! Foi ela quem fez a burrada. Ele mandou flores, ligou diversas vezes, mandou mensagem. E ela, feito besta, imaginando coisas. “...Fique certa, quando o nosso amor desperta, logo o sol se desespera, e se esconde lá na serra. Oh, Madalena”. Pedro é notívago e acha que todo mundo o é. Lástima. Molhei o cabelo. Só falta ele querer que eu inaugure o vestido lilás manchado. Esboça um sorriso. Alegria de vê-lo. É 13 de janeiro. 23 horas. Noite de quinta-feira. Mas o sol estava brilhando como nunca jamais brilhara.

5 de março de 2007

Amontoando Brasas

Para mim


Neila é minha testemunha. E cúmplice. Naquela noite fria, ela deveria cumprir um ritual pelo qual eu mesmo havia passado: andar sobre brasas. Por minha insistência, ela aceitou o desafio de fazer um curso de imersão na Chapada dos Guimarães. Três dias vivenciando experiências nunca dantes vividas. Quarenta pessoas aceitaram a proposta de, sob a orientação de uma equipe de profissionais de programação neuro-linguísticas, darem uma boa mexida em suas vidas, exterminando medos, exorcizando fantasmas, expelindo traumas, tratando neuroses. Ciúmes, medos, inquietações, tudo no lixo. Naquela noite, Neila deveria andar em brasas. Desde o início da tarde, uma grande fogueira foi feita na parte externa do ambiente do treinamento. Em algumas horas, brasas "incandescentes" brilhavam na noite, dando arrepios naqueles que sabiam a finalidade de sua existência. Em torno das 20:00 horas, todos foram convidados a assistir à construção de uma passarela de brasas. Um metro de largura por cerca de 10 de cumprimento. Aparentemente, uma estrada curta. Um caminho fácil de trilhar. Um percurso diminuto para um ser-humano. Só aparentemente. O instrutor, claro, dava instruções. Um série de mentalizações e sugestões, se absorvidas, dariam aos pés uma miraculosa proteção, tornando-os imunes às brasas. Todos se reuniram em torno à passarela. No frio daquela noite, as brasas eram um convite para se aquecer. Neila, dias antes, quando lhe disse de minha experiência, foi clara: “Nem morta que eu ando em brasa!! Cê ta ficando é besta!”. E disse mais um bando de coisas relativas à minha suposta demência e à natureza doentia de quem se predispõe a coisas do gênero. Naquela noite, no entanto, ela estava decidida a atravessar, “viva”. Depois de tudo que passara e ouvira e sentira durante o curso, andar em brasas era tão difícil quanto tomar sorvete na Sorveteria Alaska, ou passear de saia rosa na Alzira Santana, ou ver o nascer-do-sol no parque Mãe Bonifácia, ou ir comigo todos os sábados num lugar cujas paredes externas eram pintadas com imagens que eram nitidamente bundas gigantes. Ou seja, era fichinha andar em brasas. Ela e nenhuma daquelas pessoas até aquele momento havia passado por experiência equivalente. Terminada a construção da passarela-brasil, o instrutor, para incentivo de seus instruídos, abre o desfile com sua equipe. Cada um dobra a barra das calças até o joelho, ou a saia até acima dos joelhos. Todos, impávidos e indomáveis, olhos vidrados nas estrelas, pisando com firmeza em sem qualquer vestígio de medo ou dor, atravessaram a passarela. Do outro lado, terminada a travessia, gritos de “yes”, com o luxuoso e característico movimento firme do braço (punhos fechados). Estava aberto o caminho para os demais. Neila, para minha surpresa, estava convicta e firme. Iria atravessar. Eu, no entanto, estava com medo por ela, embora já tivesse passado pela experiência com sucesso, tendo também gritado umas tantas vezes o mesmo “yes”. Temia que ela se machucasse. Temia que ela temesse. Temia que aqueles pés, maravilhosos pés, fossem danificados por uma daquelas brasas maldosas. Oh!. Os alunos se enfileiraram para a travessia. Familiares com suas máquinas fotográficas a postos. Começa o desfile. Pessoas que nunca vi, mas com as quais me irmanava naquele momento, davam gritos de vitória logo após a travessia. Do outro lado, eram recebidos por aqueles que já haviam atravessado. Muita vibração, acalorados abraços, gritos de alegria. Aquelas pessoas estavam ali para vencerem seus medos. E o desafio de atravessar um caminho de brasas era algo que lhes dava uma sensação estranha de invencibilidade, de poder, de imponderável satisfação. Chegara a vez de Neila, e eu não sabia perguntar ao meu corpo se aqueles tremores eram de medo ou de frio. Resoluta, ela caminhou decidida e firmemente sobre as brasas. Cada passo dado, uma vitória. A cada passo, uma nova mulher se formava. Podia jurar que Simone faria a trilha sonora: “que venha essa nova mulher, de dentro de mim...”. Acompanhei cada passo daquele. No meu campo de visão, cada movimento demorava uma eternidade. Em segundos, no entanto, vejo-a dar o último passo. Exultante e em lágrimas, ela grita: “yes!”. Dou-lhe um abraço, mas ela não se contém. Não se basta. Dá pulos. Grita. “Yes!”. Nem mesmo calor sentira. Naquela noite, não dormimos. O Hotel dispunha de um ofurô. Lá ficamos. Sós, naquela madrugada. Amontoando brasas, outras brasas. Yes!!.

28 de fevereiro de 2007

Jovita Sena Mendes ou Maínha

Maínha faz aniversário hoje. É pisciana. Ela vive de cuidar das plantas e deve estar, nesse momento, no fogão de lenha cozinhando ou servindo almoço para os netos. Parabéns, Mainha! Lembram do post Palmolive para cabelos oleosos? Exato. Lembram de minhas dores de barriga? Exato. Façam suas homenagens!!!

Conto de Fadas - Parte I

Ali pelos 17, eu estudava em Santa Maria da Vitória e morava numa república. Por aquela época, eu trabalhava no Banco do Brasil e não estava gostando de morar com aquele pessoal. Muita neurose junta. Foi quando uma amiga, irmã de uma colega de sala, disse-me que seu irmão, Lulu, havia se separado e estava morando sozinho. Lulu era arquiteto e topógrafo. Sua casa, ele mesmo a projetara. Descrevo-a. A casa ficava a 20 metros do Rio Corrente. Bastava sair do jardim e descer para o rio. Por esse tempo, eu não sabia nadar, o que tornava inútil tal proximidade. Lulu desenhara a casa de modo que ficasse recuada. A parte da frente virou jardim. Havia uma sala, dois quartos relativamente grandes, um pequeno quintal, o escritório do meu amigo, e uma cozinha em dois ambientes. A casa era toda branca. As janelas, elas se abriam em duas bandas e tinham contornos arredondados na parte superior. As laterais da casa também eram ajardinadas. O telhado era em duas águas (se é que o termo técnico é esse). Quando fui apresentado a Lulu, sujeito muito tímido mas muito agradável. A empatia foi imediata. Coincidentemente, a mim também me chamavam de Lulu, na escola. E, no trabalho, de Lula. Pois bem. Lulu, depois que da separação, entrou numa espécie de melancolia. Enclausurou-se. E, coisa inusitada, começou a beber. Sua ex-mulher, que depois conheci, vez por outra ia lá, conversava comigo, estragava o dia dele e partia. Mas isso é outro capítulo. O certo é que Lulu me disse: “Lula, você vai ocupar o quarto que fica para o jardim. Não repare. Esse quarto, quando o desenhei, era para minha filha. Os papéis de parede e todas essas frescuras você mantém se achar conveniente. Seus livros, se quiser, pode colocar no escritório. Eu quase não uso.” Na época, estava viciado nos escritores portugueses e lia a obra do Antero de Quental. “Coração Liberto” e outras mumunhas mais. Peguei minha mala, abri o guarda-roupa embutido, instalei lá meus anexos, e fui ler no jardim, ouvindo o silencioso e inaudível correr das águas do Rio Corrente. Naquela noite primeira, fui dormir com uma sensação estranha, mas ao mesmo tempo agradavelmente confortável. Ao amanhecer, ao abrir as janelas, a luz do sol penetrou pelo quarto. Era muito cedo, e gotas de orvalho ainda brilhavam nas rosas e nas gramas do jardim. Imediatamente pensei em Minéia. Tenho minhas razões para isso. O sol, naquela manhã, me dava boas-vindas. Pareceu-me estar nascendo novamente. Pareceu-me que a vida que eu levava tinha sido definitivamente colocada num baú. Pareceu-me que a paz que eu nunca tive, se apoderara de mim, e tinha o sol como seu mensageiro, luminoso mensageiro. Levantei-me e....

26 de fevereiro de 2007

Filosofia Anônima

... acordo de madrugada e caminho cambaleante até o banheiro sentindo dores pelo corpo e uma dificuldade qualquer ao andar que não sentia antes e uma demora em alcançar o banheiro e esta sensação que me invade devagarinho com o passar dos anos vai penetrando tão quase imperceptivelmente em meu corpo que é quase que um "surpreender" a velhice trabalhando em surdina o que me acontece nesta madrugada... mas que equipamento dos infernos este que o imponderável usa pra me enferrujar tão surdamente...

Deusa de Assombrosas Tetas

Para Máximus Mansur


Neste domingo, pós carnaval, às cinco e meia da manhã, o sol ainda não havia
nascido, desci até a garagem. Peguei os CDs da Patrícia Costa. Saí rumo à
Rodoviária de Salvador. Thereza chegaria, pelas previsões, ali pelas seis da
manhã. Engano, chegou às sete e trinta. Eu tenho muito que fazer no trabalho e
muito que ler na faculdade, mas achei pertinente, e oportuno, esquecer tudo que
tinha de obrigações e dedicar o domingo a ela. Foi o que fiz. Agora, são 20:30 e
preciso contar nossa turnê.

Foram três paradas. Antes, porém, um comentário um tanto quanto “piegas”. Quando voltávamos da Rodoviária e antes da turnê abaixo, dirigindo pela Orla, senti uma espécie de satisfação. A cidade voltara ao normal. Acabara o carnaval e o domingo era meu novamente. Poucos dias antes, durante o carnaval, abateu-me (eis aqui a pieguice) certo sentimento de... ciúme. Gente do mundo inteiro na minha segunda cidade, usando-a e abusando-a. Sei lá. É como se ela se prostituísse, se vendesse. Vamos ao que interessa.

Primeira parada: Praia do Jardim de Alá, uma das mais bonitas da Orla de Salvador. Estacionei. Havia uma banda tocando coisas do carnaval. Muitos e muitos turistas ainda estão na cidade, de modo que os artistas baianos, mesmo terminado o carnaval, ainda fazem suas cantorias pelas praias e pelos bares. Pois bem. A cantora, assim que pusemos os pés na areia da praia, diz: “quero convidar aqui para o palco um homem para dançar comigo”. Era uma dessas loiras falantes, com vestido minúsculo (que me deixam ruborizado) e um vozeirão a la Ivete Sangalo. Quando vi que nenhum homem se predispunha a contribuir para a festa, fiz menção de subir, no que fui apoiado por Thereza. Tirei a carteira. Dei para Thereza. Tirei as chaves do bolso. Dei pra Thereza. Tirei o relógio. Dei pra Thereza. Estalei os dedos. Estava pronto. Mas a cantora, impaciente, descera do palco, atravessara a areia quente e capturara um maranhensse tímido que lá estava. Fiquei desapontado. Eu, tímido, mas espalhafatoso (como diria Caetano), queria mais era agradar Thereza (tipo para tornar pitoresco o domingo de sua chegada a Salvador. Frescura, como podeis perceber). Despontados, sentamo-nos numa mesinha da praia e pedimos água de coco. Tomamos e ficamos vendo o maranhensse, que não sabia dançar, dançando. Tomada a água de côco, partimos, tímida e espalhafatosamente, para outra praia..

Segunda parada. Na outra praia, outro músico, sozinho, cantava. Thereza gostou. Sentamos e fomos ouvir. Sabe aqueles sujeitos que malham, mas que o fruto do esforço só se verifica da cintura para cima? Era o caso do bendito. Braços enormes e pernas minúsculas, e finas. Parece elefantíase. A voz rouca era resultado dos esforços no carnaval. Na orelha, um brinco maior e mais pesado que os grilhões usados por meus antepassados. Pedais espalhados pelo chão e uma pasta com letras de músicas. Ficamos por ali, ouvimos algumas músicas e saímos. Somos muito volúveis pelo visto. Levantamo-nos, seguidos pelo garçom que insistia em que eu tomasse a bendita da Schin gelada. Não tomei, embora o calor da praia fosse argumento suficiente para três delas. Pegamos o carro e fomos para o Pelourinho.

Terceira parada. Pelourinho. Já eram 14 horas e Thereza tinha fome. Fomos almoçar no Restaurante Terra Brazilis. No som do restaurante, Caetano. “Sou tímido e espalhafatoso, torre traçada por Gaudi. São Paulo é como o mundo todo. No mundo, um grande amor perdi. Caretas de Paris e New York, sem mágoas, estamos aí... Deusa de assombrosas tetas!”

Tudo bem, chega de Caetano. Enquanto comíamos a feijoada, falávamos sobre homossexualismo. O que eu disse para ela, digo para vocês também. Nutro uma simpatia muito grande por eles (embora suponha que a recíproca não seja verdadeira). Eles fundem em si as qualidades que os homens deviam ter, mas não têm, por machismo ou por idiotice, e as qualidades que muitas mulheres têm, mas que, neles, ganham contornos de profissionalismo. Fui claro? Não, eu sei.

Aliás (só um parêntesis, volto ao tema central em 10 linhas), temos uma frustração na família. Todos imaginamos, inclusive paínho, que Fábio, o caçula, apresentava alguns sintomas que denunciavam a presença de um fato novo. Quando Fabinho nasceu, Márcia e Marlúcia já eram grandinhas. E, diferentemente de nós outros, o infame nascera com cabelos cacheados e cor da pele que estava mais para paínho (de origem portuguesa) que para maínha (afro-descendente). Virara atração o bendito. Nesse contexto, todas as mulheres da rua adotaram a criança e o mimoseavam em demasia. Por essa época, eu e Petrônio estávamos já com nossos 7, 8 anos, e trabalhávamos feito gente grande. Só quem não trabalhava mesmo eram Paulinho, Maurício e Fábio. Ide perguntar aos mesmos e eles vos hão de confirmar. Pois a rua inteira começou a comentar, à boca pequena, que o filho caçula de Dona Jovita... Bem, depois eu falo sobre isso. O certo é que Fábio contrariou nossas expectativas. Lamentavelmente. Seria legal ter um irmão que fundisse as qualidades que citei acima.

Voltemos ao Pelourinho. Terminada a feijoada, subimos rumo ao Largo Tereza Batista, muito propositadamente. Depois, quando íamos em direção à rua João de Deus, ouvi um contrabaixo retumbante numa toada que, sem sombra de dúvidas, era um blues. Não me contive: “Thereza, vamos lá?!” A rua estreita estava cheia de turistas e de citadinos. Na calçada, no palco improvisado (no Pelourinho, essa tarde se improvisa, hehe), uma bateria e o baterista; um baixo e o baixista; uma guitarra e o guitarrista, que era também o vocalista. Amigos, eu já andei muito nesse mundo (e também fora dele, com Alfredo), já ouvi de tudo, mas os caras deram um show como nunca ouvi. O cantor era um rapaz de cabelo rastafari bem magricelo mas com uma voz maravilhosa. Tocava como ninguém. Na calçada, próximos à mesa em que ficamos, turistas dançavam, no que eu, que estava desapontado com a não dança na praia, juntei-me aos tais. Thereza olhava-me como quem diz, no íntimo: “é absolutamente necessário ficar rebolando?” Li seus pensamentos mas continuei com os turistas. Enfim, foi um show. Antes de irmos embora, a banda tocou, muito apropriadamente, “País Tropical”, do Jorge Ben Jor: “Sou flamengo e tenho uma nega chamada Tereza... em fevereiro, FEVEREIRO, tem carnaval, tem CARNAVAL!” Show igual, só no Tom Shoppin (a Casa de Shows fica numa das transversais da Av. Miguel Sutil – vide Respirando Ameaças -, onde você vai ouvir uma negra cantando maravilhosamente, enquanto toma uma pinacolada).

Mas não ficou por ai. Pedi ao dono do bar telefone do cantor. Ele me passou o telefone (071-9169-3880) e o site. www.marcionilio.com.br. Achei bem pouco artístico o nome do sujeito, mas respeitei. Queria mandar para ele um e-mail perguntando onde ele se apresenta e manter contatos. Entrei no site. Qual não foi minha surpresa? Abram o site e vão entender. O sujeito é o cara. Mas, cantor igual, só um: Máximus Mansur. Site? Não tem. Endereço? Não sei. Banda? Não tem. Notoriedade? Ínfima. Dinheiro? Nem pensar. CD? Não tem. Mas todo aquele que ouvi-lo cantar dirá: "mais, toca mais!". Pois bem, fomos embora. Não pude ficar mais na rua. Minha cabeça estava e está muito preocupada em não perder a entrega do Oscar, que está começando, por sinal. Thereza dorme. Reli o texto e observei: que ele é uma celeuma sem pé e sem cabeça, que há cinco temas intercalados sem qualquer lógica, e que eu devia não publicá-lo. Depois eu decido. Está começando o Oscar e o requeijão que Thereza trouxe, e que comi, já me faz pensar em Judas, e no seu tardio arrependimento.

24 de fevereiro de 2007

"... E o Vento Levou"

Para Petrônio

Lá em casa, Supercine e Tela Quente eram programas sagrados. Segunda e sábado, naquele frio que sempre caracterizou Vitória da Conquista, minha cidade, sentávamos, nós oito, num único sofá, cobertos por cobertores de retalhes que mainha fabricava e, silenciosos, assistíamos os filmes. Todos com meias e pijama de bolinha. Lá do quarto, paínho e maínha, que muito cedo iam para cama, autorizavam que varássemos a noite vendo filmes. Mas pediam silêncio. Quem fizesse barulho, era repreendido pelos demais sete. Se os barulhentos fossem Maurício, Fábio ou Minéia, a repreensão vinha acompanhada de um tabefe, já que eram menores. Paulinho, embora fosse o mais velho, por algum motivo misterioso, nunca usou da condição de primogênito para impor autoridade. Nosso clã era meio que acéfalo, embora nós seis voluntariamente nos predispuséssemos – por algum impulso genético – a obedecer a ele e a Marlúcia. Das três, uma: ou ele precocemente adotava um regime democrático, ou éramos por demais civilizadamente dóceis ou ele era besta mesmo e não aproveitou a ocasião para imperar como Idi Amim Dada. Estou aprofundando uma análise sociológica sobre o tema. Tão logo esteja pronto, divulgo. Pois bem. Nossa TV de 20 polegadas, instalada ali na estante – altar-mor e santuário perpétuo - era um convite à contrição e ao silêncio reverente. Nos intervalos dos filmes, íamos comer pão e vitamina de abacate (A Cine Ceia), dois produtos que abundavam em casa. Um, porque meu pai era Padeiro, outro, porque tínhamos cinco pés de abacate no quintal (vide Abacate). Tão logo ouvíamos o plin plin, corríamos para o sofá. A guerra era ficar no meio, aquecidos. Quem ficava nas pontas tinha 50% de perda no que toca ao aquecimento natural. Claro que estar no meio tinha lá alguns inconvenientes se se considerar que Petrônio tinha uma especialidade biológica que não ouso dizer aqui, mas que causava certo mal estar, principalmente àqueles mais adjacentes. O referido mal-estar, se previamente anunciado, podia causar menos prejuízo, mas Petrônio nunca profetizava. Fazer o quê?. O certo é que a concentração era essencial. Todos tinham que estar atentos a cada movimento. E todos tinham que ficar atentos aos detalhes para não ficar perguntando isso ou aquilo. Claro que Fábio e Maurício e Minéia não entendiam tudo, afinal eram menos informados e menos inteligentes que nós, “os mais velhos”. Havia, e há, certa cumplicidade e, mesmo, certa solidariedade nisso. Se alguém demorava a vir, gritávamos: “Já começou, vem logo!”. Juntos, assistimos à maioria dos clássicos do cinema. “... E o vento levou”. Cerca de três horas! Imaginem vocês!. “Doutor Jivago”, “A Noviça Rebelde”; “Os Embalos de Sábado à Noite”, “Nos Tempos da Brilhantina”, “Bem Hur”, “Moisés”, “Um Estranho no Ninho”, “Kramer versus Kramer”, "Planeta dos Macacos", etc, etc. Tempos atrás, quando morávamos em Brasília e já éramos grandinhos, ia passar um filmaço no sábado à noite. Todos os preparativos foram feitos para que os que ali estavam se organizassem. Havia um desfalque, já que Paulinho casara-se com Valci – prometo falar disso em outra ocasião – e Marlúcia casara-se com Nilton Santana – prometo idem. Agora, restavam: Fábio, Maurício, Minéia, eu, Petrônio e Márcia. Petrônio, com o tempo, evoluíra muito na sua especialidade. Fábio, Maurício e Minéia já tinham maior compreensão das coisas. Ocorre que Fábio, pouco antes de começar o filme, vai para o banheiro com o Volume II dos Ensaios do Montagne (publicados em três volumes pela Editora da UNB), contrariando a Liturgia de Leitura no Banheiro (vide Exortações Sanitárias). E lá ficara até que o filme começou. Preocupado com um possível atraso (e de ter que contar o início do filme ao retardatário do Fábio), gritei: "Fábio, já tá começaaaaaando!". Ele, de lá, remete a pérola: “Daqui dá pra ouvir, depois vocês me contam as imagens”.

21 de fevereiro de 2007

Respirando Ameaças

Para Allan (sucursal Bolívia)

Quando Saulo de Tarso ia pelo caminho de Damasco, “um resplendor de luz do céu o fez cegar.” E uma voz, vinda do céu, indagou: “Saulo, Saulo, porque me persegues? Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões”. Era Jesus. Daí em diante, como todos sabem, duas mudanças decisivas aconteceram. Uma, Saulo tornou-se defensor dos seguidores do Nazareno, transformando-se no principal nome do pensamento cristão. Outra, mudou de nome. Deixou de ser chamado de Saulo para ser Paulo, que quer dizer: pequeno, humilde. O fato está descrito com mais detalhes lá em Atos dos Apóstolos, 9. Fatos miraculosos como este permeiam a Bíblia. Alguns mais ou menos conhecidos. A conversão de Paulo (ou Saulo) é talvez o mais conhecido, ou pelo menos o mais importante, se considerarmos que, na ausência de Paulo, o florescimento do Cristianismo seria, por assim dizer, pífio. Um detalhe interessante, que remete a uma licença poética sacra, está logo no primeiro versículo: “E Saulo, respirando ainda ameaças, e mortes contra os discípulos do Senhor...”. “Respirando ameaças...”. Sempre achei rica tal imagem. Outra construção muito erudita: “Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões!”. Claro que essas construções estão presentes na tradução do João Ferreira de Almeida. Outras traduções trarão outras formas de expressão. Pois em verdade, em verdade vos digo: eu e Paulo temos três coisas em comum. Também fiquei cego por conta de um resplendor de luz, também mudei de nome, também mudei o rumo de minha vida. Há, é evidente, algumas diferenças entre nossas histórias, mas que ambos fomos abatidos por algo miraculoso, isso fomos. Eis o fato. Eu, Cláudio, estava no Caminho do Cedros – restaurante árabe de Cuiabá – quando, ao meu lado, no banco de passageiro, uma luz resplandecente com forma humana disse-me: “Encoste o carro”. Não, não era nenhum guarda de trânsito fantasmagórico. Encostei o carro. Eram exatamente 23:27 horas. Eu estava trêmulo, e não conseguia fugir, embora pudesse. A luz, por um passe de mágica, abriu o teto do carro e, por ele, me transportou para fora do veículo, colocando-me sobre um cavalo alado alvo como os lençóis do Hotel Tropical (Juazeiro-BA). Montando no cavalo, eis que sobrevoei toda a cidade de Cuiabá, afastando-me gradativamente da terra. Agarrei-me às crinas do Cavalo, cujo nome era Alfredo, e continuei afastando-me da terra que, em alguns minutos, tinha as dimensões de uma bola de futebol. Alfredo não tinha pressa. Suas asas batiam vagarosa, suave e levemente. Mas, não sei como, íamos numa velocidade estonteante. Em segundos, astros de todas as espécies e luminosidades iam ficando para trás. Formações celestiais eram atravessadas em milésimos de segundo. Até que chegamos num ponto do universo onde um astro gigantesco ocupava toda uma região. Sei que era colossal, mas não há medida com que possa explicar seu tamanho. Sei dizer que todos os astros gigantes pelos quais passamos eram poeira cósmica próximos a este colosso. Assombro. Medo. Alfredo parara e planava, como que para permitir-me contemplar o colosso. Foi quando olhei para trás e vi meus livros no banco traseiro do carro. Voltando-me, estava novamente no meu carro. Olhei para o relógio: 23:28. A viagem durara menos de 60 segundos. Desaparecera Alfredo. Voltei à terra. Se é que dela saí. Não fui para o Cedros. Embora minha fome pedisse uma esfirra de frango. Estava ainda sob o efeito da impressionante, inesquecível, inacreditável viagem. Na transversal, Avenida Miguel Sutil, há um supermercado 24 horas. Entrei e fui à cata de um tablete de chocolate meio amargo da Nestlé. Voltei para casa. Duas coisas aconteceram comigo após esse ocorrido. Uma, mudei de nome. Passei a chamar-me Krháudyo. A outra, só a história poderá revelar.