18 de março de 2007

Eu e Luiz


Para Karina Yuri Ogawa




Dois meses. Foi desesperadora a certeza da gravidez. Ela tinha suspeitas,
afinal de contas, nunca havia atrasado tanto. Mas agora, tendo às mãos o
resultado dos exames, o mundo desabava, feito placas de gelo gigantes de um
monumental iceberg. Aos 18 anos, Vânia não podia acreditar que era seu nome que
estava naquele resultado de exame, em negrito (arial narrow 11). Um tumulto de
pensamentos se atropelavam na rua estreita de sua jovem, tumultuada cabeça. Na
clínica, fora de si, quis falar com o médico, Dr. Heráclito. Aguarde um
instante, diz a assistente.

Dois meses. Seu filho já tinha dois meses. A realidade tinha dois meses. Dr. Heráclito, homem experimentado, lera nos olhos de Vânia todo o desespero. Quis dizer algo consolador, mas nunca soube lidar com emoções. Se soubesse, teria sido psicólogo e não clínico. Mas apertou
sua mão e disse-lhe que era uma vida que ela carregava no ventre, uma vida que
merecia todo seu amor, e que deveria ser recebida como uma bênção. Disse isso,
mas queria dizer outras coisas. Queria arrancar daqueles olhos vidrados a
angústia, o peso.

Ainda garotinha, 10, 12 anos, Vânia brincava com
as amigas, dizendo que, quando se casasse, seu filho se chamaria Luiz Henrique.
Hoje, naquela linda manhã de sol em Brasília, ela só via nuvens escuras e
trovoadas, e raios e um céu sem teto. Luiz Henrique tinha dois meses e ela não
tinha a menor idéia de como iria apresentá-lo a seus pais. Aliás, ela não tinha
idéia de nada. A rua estreita de sua cabeça ainda estava com um tremendo
engarrafamento. Ponto de Ônibus da 116 Norte.

Foi no carnaval de
Olinda que ela conhecera, três meses antes, Maurício. Em meio à multidão de
foliões, aquele rosto lhe chamara a atenção. Um quê de enigmática timidez se
entrevia nos olhos daquele estranho. Maurício era funcionário dos Correios em
Recife. Sempre preferiu o carnaval mais ameno de Olinda. Gente boa, Maurício.
Jogava seu futebol. Bebia sua cerveja. Tinha lá seus casos, mas a titular mesmo
era Carlinha. Carlinha, evangélica, jamais ia a carnavais. “Tá amarrado!” Ela
até pensou em proibir Maurício de ir, mas Maurício às vezes é muito opinioso e
não gosta de ser mandado por mulher. Esta parte da história, só muito tarde
Vânia viria a conhecer, muito mais tarde.

Vânia estava apaixonada
por alguém absolutamente estranho: o pai de Luiz Henrique. Luiz Henrique, esse
outro alguém-por-vir, era-lhe completamente desconhecido, mas, ironicamente, era
ela mesma, desdobrada, multiplicada, ampliada, extensa, enriquecida. Era ela
mesma, inevitável, real, viva.

Maurício, aquele estranho, que
revolvera suas entranhas, que envolvera sua alma, que lhe prometera amor eterno,
que lhe dera mais atenção que qualquer um poderia ter dado, que a chamava de
princesa, que lhe disse ao ouvidos aquelas palavras encantadas e lindas e
fabulosas e mágicas e... suculentas, que lhe despira com um certo ardor, mas com
uma pressa que ela desejou tivesse sido talvez um pouco mais romântica, um pouco
mais encantada, fabulosa, mágica, lentamente suculenta. Estava amarrada.

Naquela madrugada, no vôo de retorno a Brasília, levava nos olhos
o rosto de Maurício; no coração, algemas; no ventre, Luiz Henrique. Luiz era
filho daquelas palavras mais... suculentas.

Na parada de ônibus,
tinha medo de tocar naquele papel, áspero papel. Tinha medo de pensar no futuro,
áspero futuro. Enquanto chorava, pensava em como daria a notícia em casa.
Lembrou-se de Bruna, sua tia solteirona, irmã de seu pai. Tia Bruna vai me
compreender. Ligou pelo celular. Caixa de mensagens.

Em trinta
minutos ela estará em casa. Mas se eu pudesse voltar atrás e refizesse o meu
passado! Maldito olhar! Maldita enigmática timidez! Malditas palavras
suculentas! Em trinta minutos, em casa. Pai só chega à noite. Mãe está em casa.
Mas se o motorista fosse misericordioso, levá-la-ia para longe, muito longe. Lá
onde não houvesse pensamentos, nem placas gigantes de icebegs caindo lenta e
drasticamente.

Assusta-se com a frenagem brusca do ônibus.
Taguatinga-Sul (Via Católica). É meu ônibus. Entra. Sobe devagar, está
transportando Luiz Henrique. Há tanta tranqüilidade no rosto dessas pessoas
sentadas e agarradas no ferro do ônibus! Bando de insensíveis! Será que não vêem
que quero ajuda e que estou desesperada? Será que algum cavalheiro vai lhe dar
lugar? Afinal de contas, ela está grávida. Custa ser gentil? Um senhor lhe cede
o lugar. Lera seus pensamentos. Agradece. Senta-se. Vânia esboça justificativas
para sua mãe. Pensa no drama que fará seu pai. “Grávida! Como assim, Vânia?
Grávida de quem, Vânia, se você nem namorado tem?!”
. Pensa nas respostas que
dará. “Minha filha, tanto que eu te pedi para não ir para Recife! Tanto que eu
te falei para não ir, Vânia! Vânia, quem é o pai desse menino, Vânia? Pelo amor
de Deus, Vânia!”
Pensa em sua mãe intervindo: “Calma, amor, calma!” “Calma como,
Aninha? Calma como?”. “A menina tá chorando, Amor!”


Era verdade,
seu pai não queria que ela fosse, muito menos com as meninas, Soninha e Talita.
Talita é louca; Soninha, maluca. Pensa em todos os comentários e em todos os
depoimentos e em todas as pessoas curiosas.

Ouve o barulho das
águas do oceano a cada queda de cada placa de cada gigante iceberg. Maurício não
tem celular, não gosta de ser controlado, monitorado. Maurício é muito opinioso,
e não gosta de usar preservativo. Tinha lá suas razões. Maurício é saudável. O
pai de Luiz Henrique conhece Recife inteira, entrega cartas. ECT. Farda amarela.
Talvez ele também entregue resultados de exames. Quantas placas gigantes afundam
lentamente a cada instante? Em quinze minutos, estaremos em casa. Nós dois.
Eu... e Luiz.

2 comentários:

Anônimo disse...

Luiz, desculpe usar este espaço para lhe falar, mas resumindo brevemente em miúdos...qual é seu novo e-mail?
O que eu tenho utilizado esta voltando com mensagens ordinárias de não recebimento!
É claro que tenho coisas obcenas a lhe dizer que não podem ser explicitadas neste espaço...hehehe!
Abraços,
Tenho lido seu blog semanalmente, por isto, sem puxões de orelha!
Bjinhos,

Krháudynho disse...

Ana, meus e-mails são: luizclaudio_ba@hotmail.com; luiz.sena@previdencia.gov.br e maraja02@terra.com.br.